quinta-feira, 9 de março de 2006

Artigo


Milagreiro está de volta ao noticiário
Augusto Nunes

O presidente Lula sempre foi avesso a ouvir más notícias. Só gosta das boas e fáceis de entender. Se complicada, melhor nem contar como a coisa foi feita. Basta-lhe saber que foi. Íntimo de Lula, o presidente do Sebrae, Paulo Okamotto, conhece há muito tempo esse traço de temperamento.

Por conhecê-lo, contou em agosto passado, resolveu não aperrear o amigo com a narrativa do epílogo de uma pendência financeira que se arrastava desde 2002. Naquele ano, Lula, então presidente de honra do PT, solicitou um empréstimo que, em meados de 2005, ainda jazia na gaveta dos assuntos a tratar.

Ressuscitada pela CPI dos Correios, a história teria desdobramentos intrigantes. Lula mandou avisar que nunca devera um só centavo ao PT. Portanto, nunca houvera o que pagar. Ocorre que a dívida fora quitada em 2003. Quem estendera a mão providencial? Teria sido mais uma do Marcos Valério? A última do Delúbio?

Depois de alguns dias de suspense, apresentou-se ao país o pagador da dívida de R$ 29.536,00: Paulo Okamotto. Liqüidara o débito com dinheiro do próprio bolso, jurou o presidente do Sebrae. Não apresentou comprovantes. Não se lembrava sequer do local do pagamento. Mais tarde, retocou a versão: fizera o bem num guichê do Banco do Brasil.

Não se recuperara por inteiro do acesso de amnésia: foi-lhe impossível explicar, por exemplo, de que modo a bolada aterrissara numa conta do PT no ABC paulista. Como prova do que dissera, Okamotto ofereceu a palavra de Okamotto. E garantiu que assim agira impelido pelo sentimento da gratidão.

Paulista de Mauá, ex-metalúrgico, ex-tesoureiro do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo e ex-presidente do PT paulista, Okamotto devia a Lula o desembarque na chefia do Sebrae. A entidade representa 15 milhões de microempresários, emprega 4.500 empregados e administrou no ano passado um orçamento de R$ 900 milhões. Nada mau para um neto de imigrantes japoneses expulsos pela fome do país natal.

Nada mais natural que socorresse o Grande Companheiro na hora da aflição. Convocado pela CPI dos Bingos, o amigão-do-Homem tropeçou em enigmas ainda por decifrar. Como pode um brasileiro da classe média, conforme se define, desembolsar com a desenvoltura de ricaço perdulário quase R$ 30 mil, quantia equivalente a seu ordenado atual? Por que a doação não aparecera nas declarações de renda do presenteador e do presenteado?

Encerrado o depoimento, Okamotto achou sensato pedir ao Supremo Tribunal Federal que impedisse a quebra dos sigilos bancário, telefônico e fiscal, solicitada pela CPI. Foi atendido pelo sempre caridoso Nelson Jobim (PMDB-STF).

No Brasil, quem busca evitar a quebra do sigilo bancário deveria ser preso imediatamente: só age assim quem pecou. Como o STF tem coração de mãe, manteve à distância da CPI o homem que acaba de retornar ruidosamente ao noticiário político-policial.

Nesta semana, o país foi informado de que Okamotto já brincava de trem-pagador quando ganhava bem menos por mês. Em 2002, socorreu com quase R$ 25 mil a filha mais velha de Lula, Lurian, enredada num calote aplicado no dono do imóvel que abrigara o escritório da candidata a vereadora em São Bernardo. Não conseguiu a vaga. Conseguiu o adjutório. Em 2004, o cofre-ambulante voltou a São Bernardo para doar R$ 25 mil ao candidato a prefeito Vicentinho. "Sou um perito em economia formado pela universidade da vida", repete Okamotto. Nessa academia, alunos espertos aprendem como se opera o milagre da multiplicação dos centavos.

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