
O poder pelo poder
Paulo Saab
A decisão da Câmara dos Deputados de acabar com a chamada verticalização nas eleições é uma forma a mais de demonstrar como, no Brasil, os partidos políticos e as alianças existem apenas como forma de chegada ao poder. Nada além disso.
A verticalização, nome horrível para uma situação mais justa, obrigava os partidos a terem coligações nas eleições seguindo as efetuadas na esfera federal. Por exemplo, se o PSDB e o PFL, na campanha presidencial se unirem em convenção, nos estados os dois partidos não poderiam formar coligações diferentes. Com a mudança poderá haver alianças partidárias diferentes entre si no plano federal e em cada unidade da Federação. Isto significa que partidos poderão ser aliados num Estado e inimigos em outros.
Pode parecer, numa primeira análise, que a suspensão da verticalização favoreça o caráter federalista do País, com Estados autônomos entre si, mas unidos numa legislação maior. Isso, todavia, não ocorre no Brasil em quase nenhuma esfera. Apesar de ostentar o pomposo nome de República Federativa do Brasil, somos praticamente um país sem autonomia entre os Estados. Nosso título, República Federativa do Brasil, na prática tem o mesmo significado da República Bolivariana da Venezuela, com todo respeito ao camarada Chávez. Na prática não quer dizer nada.
A pseudoliberdade de alianças diferentes em Estados diferentes só evidencia a gula dos políticos brasileiros para chegar ao poder. Este representa a aspiração máxima, porque tomar conta das finanças públicas, sobre elas exercer controle e destino, nomear desde parentes até eleitores sem competência, eis a vocação máxima da maioria de nossos políticos e governantes. Claro que aqui não preciso mencionar a tomada de assalto do próprio Poder e a corrupção generalizada.
Esta espécie de sub-produto da chegada ao Poder pelo Poder tem, no momento, sua expressão mais forte estampada diariamente em todos os jornais, há mais de oito meses, em todo o Brasil. Sem projeto de governo, mas com projeto de Poder pelo Poder, o atual governo federal é exemplo típico e acabado do que é fazer política e governar no Brasil. E somos uma democracia. Imagine-se isso tudo sob uma ditadura, seja de esquerda ou de direita.
A população brasileira, ignorante, desinformada, manipulada, cordata, mansa, não tem nem idéia do que seja a tal de verticalização e como isso pode produzir governos interesseiros (mais) e grupos de poder formado unicamente para mandar no patrimônio público e jamais para governar ou legislar pensando no interesse maior da população, o seu próprio bem-estar.
Fatos assim lembram com precisão o deputado Justo Veríssimo, exemplar personagem de Chico Anísio que, se não me engano, quando chamado à atenção por sua forma corrupta e fisiológica de exercer a função de representante público, dizia: Eu quero que o povo se exploda!
Artigo publicado no Diário do Comércio em 30/01/2006

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