quinta-feira, 30 de março de 2006

Artigo


A SENHORA ESTÁ DESCULPADA, DEPUTADA
Percival Puggina


Na verdade, nem precisava pedir desculpas. Ao vê-la sair dançando pelo plenário no momento em que se confirmava a absolvição do deputado João Magno (PT/MG), não pude deixar de rir. O humor e o riso têm esse poder de se impor, às vezes, em circunstâncias totalmente indevidas. Já ouvi gargalhadas em velórios. E já vi pessoas rirem incontidamente em circunstâncias protocolares severas.

Então, a senhora me fez rir. Nem sua figura, nem a impropriedade de sua conduta escapam a quem tenha aberto os olhos do corpo e da consciência. Mas sua explosão de alegria corporal e fisionômica, num momento em que a nação encobria o rosto envergonhada, me fez lembrar cena assistida em noticiário da TV. Um motorista, totalmente embriagado, fora detido para se submeter ao bafômetro. Enquanto ele estava ali, cambaleante, esperando, chegou uma repórter e perguntou: “O senhor ingeriu bebida alcoólica?” Ao que o sujeito, tomando-lhe o microfone da mão, respondeu: “Bebi nada! Quer ver?” E esvaziou os pulmões soprando o microfone como se aquilo fosse um bafômetro. Sua ginga, deputada, e os cambaleios do beberrão têm muito em comum. E ambos fazem rir, pois refletem a profunda ignorância da própria condição.

Acabo de receber do autor, Antônio Silvestri, um exemplar do livro “O vôo da serpente e o tombo do condor”. Há ali, dona Ângela, uma passagem que descreve sua situação. O trecho refere o processo de tomada das consciências: primeiro as mentes são lavadas dos conceitos anteriores, depois destruídas, em seguida é feito o mesmo com o cérebro, e, finalmente, o cérebro é ocupado. A partir de então, o “nós” coletivo que assim procedeu assume o comando, da mesma forma que os vapores alcoólicos dominam o bêbado. A única diferença está no fato de que a embriaguez terá passado na manhã seguinte ao passo que sua moléstia é quase intratável.

Enquanto a mente não dominada do leitor destas linhas ponderava aquelas absolvições e se entristecia ou revoltava, vossa excelência dançava. E naquele mesmo balanço, milhões e milhões de brasileiros, cérebros lavados, enxaguados e dominados, continuam crendo que se fez justiça, que não houve culpa, que não existiu mensalão, que caixa dois é coisa normal, que o filho de Lula merece, que o governo busca laboriosamente a verdade, que o Duda é credor da gratidão do PT, que a maldosa direita é responsável pela crise e que nosso primeiro mandatário é inocente como uma virgem de Atenas. Ou, mais desavergonhadamente, justificam as safadezas da avenida com as sacanagens do beco vizinho. A senhora não tem culpa alguma. É apenas recente imagem visível de todos os que não mais respondem por seus atos.

Um comentário:

Celso Jânio Moskorz disse...

Genial. Convoco os paulistas a absolver a deputada de seus pecados, NÃO votando mais nela. Esta já está dominada. Que dê a vez para outra.